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A falta de respeito

sexta-feira, 27 de setembro de 2019 | 253 acessos | Deixe seu comentário!

Se você quiser ser respeitado pelos outros, respeite-se. Somente assim você conseguirá que os outros respeitem você.

Fiódor Dostoiévski, Humilhados e ofendidos

“Amo meus pais. Eles são bons pais e realmente tentam fazer o melhor por mim. Eu os respeito, mas vou ter de sair de casa”. Um adolescente disse-me (Melissa falando) essas palavras em uma sessão de aconselhamento há alguns anos. Na verdade, esse respeito foi um pouco desrespeitoso. Esse é um assunto sobre o qual os pais nos indagam muito:

  • “Como faço para meu filho respeitar-me?”
  • “Como devo agir quando minha filha debocha de mim?”
  • “Meu filho sempre responde. O que devo fazer?”
  • “Meus adolescentes agem como se eu fosse dona(o) de um hotel. Falam comigo só quando querem dinheiro e caronas e, mesmo assim, dizem aquilo que irão fazer, em vez de perguntar se podem fazê-lo”
  • “Se eu falasse com meus pais da maneira como meu filho se dirige a mim, eles acabariam comigo”.

Alguma dessas falas soa familiar? Elas têm relação com algo que se passa em seu lar (ou, melhor, a algum episódio de falta de respeito que você tenha vivenciado)? Se nada disso lhe é familiar, um dia será. Eles debocharão de você, suspirarão dramaticamente, responderão você, dirão “Mãe” e “Pai” da forma mais demorada possível e, talvez, usarão termos como “não interessa”, “cale a boca” ou “que ódio”.

Recentemente, falamos com uma amiga nossa cujo filho de 11 anos usou essas e outras palavras em uma viagem com sua família. Ela relatou:

Não consigo lembrar-me de como tudo começou. Ele ou gritou com a irmã ou a incomodou, e ela pediu que parasse – como sempre acontece no carro. Então, meu marido tomou seu Nintendo DS, e ele teve um ataque. Começou a gritar: “Dê o meu DS ou então…!”.

Quando meu marido o olhou e disse: “Você pensa mesmo que isso vai funcionar?”, a situação piorou. Ele continuou a vociferar até que paramos o carro em um restaurante para almoçarmos. Ele seguiu berrando pelo estacionamento. Meu marido agarrou-o pelos ombros e disse firmemente: “Você não falará mais assim comigo!”.

Antes de entrarmos, um carro da polícia estacionou. Alguém de dentro chamara a polícia por ter pensado que meu marido estava machucando o filho. Quando o policial perguntou o que estava acontecendo, meu filho declarou: “Eu odeio tanto meu pai que quero matá-lo”.

Felizmente, a resposta do policial foi rápida, enfática e compassiva (mais para nós do que para nosso filho): “Rapaz, você tem um lar? Ele tem aquecimento? Seus pais lhe dão comida? Você acha que eles o amam?”. Depois de responder a essas perguntas contrariado, o rapaz ouviu do policial: “Então, você possui bem mais do que muitos meninos de sua idade. Agora, respeite seu pai, pois nunca mais quero ver você!”.

O respeito é um tema problemático – muito mais hoje do que no passado. Nos dias atuais, as crianças falam conosco de um jeito que nunca teríamos imaginado falar com nossos pais – principalmente porque, se o fizéssemos, eles não aceitariam, mas pegariam a vara, a colher, a palmatória ou qualquer outra coisa para nos disciplinar. Talvez, minha geração tivesse muito mais o medo que respeito pelos pais. Em todo caso, as crianças de hoje parecem não ter nenhum dos dois.

Como pais modernos, o que vocês devem fazer? De que forma é possível não apenas ensinar, mas também exigir respeito em seu lar? William Glasser, psiquiatra, escritor e notável teórico, resumiu os principais meios pelos quais aprendemos. Segundo ele, absorvemos:

  • 10% do que lemos;
  • 20% do que ouvimos;
  • 30% do que vemos;
  • 50% do que vemos e ouvimos;
  • 70% do que discutimos com os outros;
  • 80% do que experimentamos;
  • 95% do que ensinamos.

Essa lista desafia muitos dos típicos métodos de ensino, especialmente o infantil. Como você pode notar, resmungar, censurar e criticar não estão na lista. Basicamente, de acordo com Glasser, devemos ensinar, dar o exemplo, ajudar nossos filhos e dar-lhes oportunidades para que eles ensinem aos outros.

Dividiremos este capítulo em quatro categorias básicas e falaremos de como cada uma deve ser trabalhada na vida de uma criança e de um adolescente: ensinando, conquistando, dando exemplo de e exigindo respeito.

Ensine às crianças

De acordo com Glasser, apenas 20% do aprendizado ocorre a partir do que as crianças ouvem. Mas, pelo menos nos primeiros anos de vida, essa porcentagem é crucial. Você pode dar exemplo de respeito e falar sobre a importância do respeito o quanto quiser, porém isso não garante que seu filho não abra um presente de Natal dos avós sem dizer em voz alta (e aos prantos): “Ah, isso não é o que eu queria!”. Ele precisa ser ensinado diretamente. Do mesmo modo, sua filha, que sempre observou você fazer contato visual com as pessoas e dizer “Prazer em conhecê-lo(a)”, pode, muito bem, não fazer o mesmo diante de um adulto que a cumprimenta. Ela precisa de sua ajuda para aprender a respeitar os outros.

As crianças necessitam de ensino direto, ou seja, de palavras que lhes indiquem o que fazer. “Olhe nos olhos da Sra. Smith quando ela estiver falando com você!” ou “Eu gostaria de amarrar o cadarço de seus sapatos se você disser ‘por favor’” são exemplos de instruções fundamentais para os pequeninos. Como pai ou responsável, você não é apenas o primeiro professor de tudo (inclusive do respeito), mas também o mais influente.

Quando estávamos começando a redigir este capítulo, tivemos um jantar com uma amiga que era mãe “de primeira viagem”, com dois filhos que tinham menos de três anos de idade. Perguntamos o que ela gostaria de ler sobre o respeito. Sua resposta foi simples, mas fundamental: “Como fazer meus filhos me respeitarem?”. Ensinar diretamente, especialmente nos primeiros anos, é o principal. Então, como você ensina seus filhos a respeitarem-no?

  • Comece com o básico. Dê-lhes termos de bons modos para usar, tais como “por favor”, “muito obrigado” e “com licença”. Faça com que chamem os adultos de “tio” e “tia”, “Sr.” e “Sra.” ou “Seu” e “Dona”, uma maneira simples de mostrar respeito.
  • Exija o básico. Decida com seu cônjuge as principais regras de respeito que querem reforçar, como o contato visual, o uso de “por favor” e “muito obrigado” e o hábito de pedir, em vez de mandar. Ter um número limitado de conceitos para focar ajuda a criança a se lembrar deles e a não se sentir como se você estivesse sempre instruindo ou como se ela estivesse sempre em apuros.
  • Reforce essas ideias quantas vezes forem necessárias. Dizer coisas como “Tenho muito mais vontade de fazer as coisas para você quando diz ‘por favor’” pode ser uma maneira respeitosa de ensinar.
  • Seja coerente; o que você ensinar fora de casa vale dentro dela também. Às vezes, é melhor ensinar as crianças a respeitarem os familiares e, até mesmo, estranhos, do que a nós, os pais. À medida que se aproximarem da adolescência, será com você que seus filhos começarão a testar os limites do respeito. Então, inicie o processo com um bom fundamento dentro de casa. Assim, você terá uma base sólida para encarar a turbulência que essa idade traz.
  • Ensine-lhes palavras expressivas. Com frequência, seus filhos parecerão desrespeitosos, simplesmente por não saberem expressar o que sentem. Eles irão fazer ruídos, movimentar os olhos ou parecer realmente nervosos por falta de uma opção melhor ou mais gentil. Você pode ajudá-los, dizendo, por exemplo: “Sei que você deve estar frustrado comigo agora. Você tem o direito de se sentir assim, mas não pode ser desrespeitoso” ou “Você pode dizer isso novamente de um modo mais gentil?” ou “Tente novamente” (até que aprendam a se expressar respeitosamente).
  • Não reaja exageradamente à reação exagerada deles. Estresse gera estresse. Se a voz deles subir de tom e você também elevar a sua, eles poderão ficar ainda mais irados e desrespeitosos. Em vez disso, mantenha a calma e diga com uma voz branda e firme: “Não conversamos uns com os outros desse jeito nesta casa”.
  • Evite o desrespeito. Dê-lhes uma chance de dizer algo de modo diferente e, depois, se o desrespeito continuar, faça com que saiam de sua presença ou se ausente você mesmo. Não reforce o desrespeito deles dando-lhes seu tempo e sua atenção. Cline e Fay defendem a ideia de lhes dar opções nessas situações: “Você pode ir para o seu quarto ou sentar-se na sala de jantar até que consiga conversar sobre isso de modo respeitoso”. Isso, além de lhes deixar uma escolha, mostra que você está no controle da situação.

Para adolescentes

Quando atinge a adolescência, a maioria dos filhos acha que já ouviu tudo o que os pais têm a dizer. Você profere três palavras, e eles já cortam você, dizendo: “Mãe, eu sei!” ou “Você já disse isso!”. Acontece que você ainda deve ter muita coisa importante para falar – e eles, para ouvir. Então, o que fazer? Como ensinar respeito aos adolescentes, especialmente quando parece que nenhuma tentativa funcionou?

  • Espere discordância da parte deles. Pré-adolescentes e adolescentes querem afirmar sua independência. Estão descobrindo-se. Também não são muito pacientes e têm mania de grandeza. A combinação disso tudo faz com que eles desejem e geralmente sintam-se compelidos a discordar de você. Nesses anos, é realmente saudável que eles busquem descobrir sua própria voz. Entretanto, é possível que expressem sua independência – e até suas discordâncias – com gentileza. Saiba que as divergências virão e você deve honrá-las discutindo-as (quando eles não faltam com o respeito). Frases como: “Eu realmente gostaria de saber o que você acha, mas não quando fala desse jeito” e “Tente novamente” são especialmente úteis com adolescentes.
  • Escolha suas batalhas. Se brigar com eles toda vez que eles debocharem de você, estará em guerra constantemente. Valorize mais o relacionamento do que o controle, deixando algumas infrações menores passarem “despercebidamente”.
  • Não deixe que descarreguem tudo em você. Nessa idade, seus filhos, muito provavelmente, sabem como tirar você do sério. Geralmente, ficarão brigões quando forem machucados por um amigo na escola ou quando estiverem zangados com um professor. Observe se alguma coisa está acontecendo com eles. Saia da situação, se ela esquentar, ou dê-lhes um tempo para que eles reflitam. Então, quando a poeira baixar, leve-os para caminhar ou faça alguma outra atividade e pergunte-lhes o que está havendo – se há algo alimentando aquela raiva.
  • Nunca é tarde demais para começar. Se seus filhos têm sérios problemas com o respeito, você pode dar o exemplo, respeitando-os ou assumindo a responsabilidade pelo comportamento deles. Você pode dizer-lhes: “Reparei que você parece ter dificuldade de respeitar as pessoas. Acho que não lhe ensinei direito essa postura quando você era menor. É importante para mim que você saiba que vamos começar a fazer isso agora, OK?”. Essa iniciativa mostra humildade e esperança de que eles são capazes de agir melhor.
  • Seja persistente. As consequências geralmente falam mais aos adolescentes do que as palavras. Em nossos escritórios, conversamos com muitos pais que só ameaçam, mas não fazem nada. Eu (Sissy) estava em uma sessão de aconselhamento familiar na semana passada com uma das adolescentes mais desrespeitosas que já conheci em meus 17 anos de ministério. Em um momento de vulnerabilidade, ela se voltou para seus pais e disse: “Nunca aprenderei a parar de ser assim se vocês não me impedirem”. Seus pais a ameaçavam com frequência, mas, depois, não a puniam. Os castigos contribuem para que os filhos sintam que nos importamos com eles e que queremos que eles se tornem tudo o que são capazes de ser.
  • Não acredite quando eles disserem: “Não estou nem aí”. Quando você os pune tirando deles o carro, o celular ou proibindo-os de ir a uma festa de aniversário pela qual têm esperado, a primeira coisa que dizem é: “Não estou nem aí”. Não caia nessa. Eles querem fazer você pensar que não se importam para verem se saem do castigo.
  • A consistência é a chave. Sempre encontramos pais frustrados que dizem na primeira vez: “Nada funciona. Disciplino minha filha, tiro suas coisas, dou-lhe tarefas etc., mas ela não muda”. Em algumas situações, isso acontece porque os pais não são consistentes; disciplinam os filhos tirando deles o celular ou fazendo com que limpem o banheiro – mas só agem assim uma ou duas vezes. Nesse caso específico, nada funcionou porque a filha conhecia os pais e sabia que, se ela ficasse zangada, eles acabariam cedendo. É verdade que alguns pais são consistentes em seu amor e sua lógica, mas seus filhos, mesmo assim, não mudam. Por isso, é importante lembrar que não somos capazes de mudar nossos filhos, mesmo com a melhor atitude que venhamos a tomar. Deus, no entanto, é capaz e faz isso em Seu tempo. Os filhos precisam sofrer as consequências de seus atos, e os pais, por sua vez, devem ser consistentes em sua disciplina. Como pai, você pode precisar mudar a tática periodicamente, para manter uma certa imprevisibilidade, mas eles sempre precisam saber quando têm um comportamento inaceitável – e as punições servem para isso, mesmo quando eles se recusam a mudar.

Conquiste

Você deve estar achando estranho falar sobre conquistar o respeito de seus filhos, uma vez que eles têm o dever de respeitá-lo naturalmente, mas esse pode ser o seu caso. De que jeito seus filhos falam com você? Como você fala com eles?

Rachel, de 15 anos de idade, tem pais divorciados. Quando, há vários anos, o pai perdeu o emprego, o único que ele conseguiu encontrar foi na Flórida. De lá para cá, ele se casou novamente, com uma mulher com três filhos. Rachel e suas irmãs passaram um fim de semana com seu pai e a nova família. De todos os irmãos e meios irmãos, Rachel é a mais parecida com o pai. Ambos têm personalidade forte e pavio curto. Contudo, realmente se amam e querem tirar o maior proveito possível do tempo que passam juntos.

Em sua última viagem, Rachel e seu pai tentavam decidir onde jantar. Ela queria comida mexicana, e ele, italiana. Nenhum deles cedia. Assim, a conversa subiu de tom. Ela disse: “Por que você nunca escuta o que quero?”. “Isso é ridículo. É só um jantar! Por que sempre precisa ser do seu jeito?”, questionou seu pai calmamente. “Acho que você está sendo ridículo!”, retrucou ela. Algo em seu pai foi cortado ao meio. “Cale-se, Rachel. Não quero ouvir mais nada; espero que você cale a boca!” Antes de Rachel ter tempo para pensar, ela gritou: “Por que você mesmo não se cala?”.

Rachel estava, sem dúvida, comportando-se mal. As crianças devem respeitar seus pais e ponto final. Todavia, os pais também precisam respeitar seus filhos. São duas coisas intrinsecamente ligadas.

Para crianças

O psicólogo e um dos maiores especialistas em desenvolvimento Erik Erikson chamou o primeiro estágio do desenvolvimento humano de “confiança versus desconfiança”. Os pais são as primeiras pessoas em quem os filhos aprendem a confiar – para suprir suas necessidades básicas, amá-los e alimentá-los. Quando se sentem seguros com seu cuidado, eles passam a acreditar que os outros são confiáveis também. Em outras palavras, a confiança em você influencia o nível de confiança que têm nos outros. Além disso, também é nos primeiros estágios da vida de seu filho que você ganha o respeito inicial.

Tudo bem, mas e depois? A maioria dos pais – principalmente os que leram este livro – passam aos filhos aqueles princípios básicos de confiança e respeito. O que mais gera a confiança de seus filhos em você? Como proceder para ganhar mais respeito da parte deles?

  • Seja justo. Ouça e considere a perspectiva de seus filhos mesmo quando você sabe que estão errados.
  • Seja confiável. Se seu filho lhe conta uma coisa e pede que você não deixe ninguém mais saber, guarde o segredo (mesmo sendo algo que envolva o filho de um amigo seu, valorize primeiro o seu relacionamento com seu filho).
  • Seja leal. Ajude-o a saber que você tem palavra e cumpre suas promessas.
  • Seja um bom ouvinte. Sempre dizemos às nossas crianças para fazerem contato visual com as pessoas, mas, quando estamos ocupados, não paramos o suficiente para olhar para eles e ouvir o que têm a dizer.
  • Seja honesto. Seja o que for o que você esteja atravessando, se seus filhos fizerem uma pergunta, conte-lhes a verdade da maneira adequada à idade deles.
  • Seja agradável. As crianças têm dificuldade em respeitar alguém que vive criticando e desvalorizando os outros.
  • Seja maior que eles. As crianças buscam pessoas com poder, mas elas mesmas não o querem para si. Elas o provocarão para fazer com que você se ire ou se magoe. Se seu filho achar que é emocionalmente mais forte que você, irá sentir-se poderoso. Mas, para as crianças, poder gera insegurança. Elas se sentem seguras quando sabem que você é mais forte que elas. Quando elas o provocam (seja na idade que for), fazem-no para se certificar de que você é forte o suficiente para protegê-las.

Dê exemplo

Se ganhar o respeito dos filhos tem a ver com o respeito com que você trata seus filhos, dar o exemplo está relacionado ao modo como você trata os outros e a si. De acordo com o estudo de Glasser, as crianças aprendem muito mais pelos exemplos que damos que por nossos ensinamentos transmitidos (embora ainda acreditemos que isso seja realmente importante). Então, como você dá o exemplo?

Como conversa com seus amigos na frente do seu filho? Como fala sobre si e sobre seu corpo? Você gostaria de que sua forma de tratar os outros e a si fossem um obstáculo para que seu filho consiga viver bem?

 

Livro: Pais modernos, valores eternos

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