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Isaque e Rebeca

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018 | 164 acessos | Deixe seu comentário!

Isaque é frequentemente considerado um personagem sem muita expressão na narrativa bíblica. Contudo, não devemos aceitar que essa avaliação seja correta. Isaque era um homem inteligente, atingiu a idade avançada, perseguindo insistentemente um propósito honrado de vida.

Isaque era um homem extremamente pacífico, sem igual em sua atitude de nunca sucumbir ao mal. Mesmo quando tentavam se aproveitar, Isaque nunca ousava contra-atacar. Ainda que, em geral, não seja considerado um homem de coragem incomum, que outro jovem teria permitido que lhe amarrassem as mãos e os pés, para ser oferecido em sacrifício? O papel de Abraão nessa questão tem sido sempre bem enfatizado, mas Isaque deve compartilhar a mesma glória. Somente uma grande fé em Deus e uma coragem sem igual poderiam tornar tal atitude de Isaque possível.

O patriarca era também um bom marido para Rebeca (Gn 26.12-14). Nunca adotou a prática da poligamia, tão comum em seus dias. Ele cometeu um único erro muito sério, ao mentir que Rebeca era sua irmã; algo de que ela, aparentemente, ressentiu-se intensamente. As coisas nunca mais foram as mesmas depois disso. Rebeca também apelou para a fraude, sendo conivente com o embuste de seu filho, Jacó, para receber a bênção de Isaque. Rebeca não percebeu quais seriam as consequências de seu ato. Jacó recebeu a bênção, mas sua mãe pagou um amargo preço por sua ajuda. Ao mandá-lo para longe, por alguns dias, a fim de aplacar a ira de Esaú, ela jamais voltou a vê-lo e saiu obscuramente da cena bíblica.

 

O nascimento de Isaque

Homens encontraram-se com Abraão nas planícies de Manre. Eram visitantes celestiais. Abraão, a princípio, não percebeu isso. Mas o patriarca, imediatamente, ofereceu-lhes sua hospitalidade (Hb 13.2). Foi durante essa notável teofania que o Senhor fez Sua promessa final e definitiva: Sara teria um filho (Gn 18.10).

Ela estava nos fundos da tenda, separada da parte da frente por uma divisão. Quando ouviu a declaração de que teria um filho na velhice, ela riu para si mesma (v. 12). Em defesa de Sara, cuja risada não foi mais pecaminosa do que a de Abraão, deveríamos dizer que, até aquele momento, ela não tinha razões para acreditar que os visitantes eram criaturas celestiais. Ela supunha que eles estavam sendo meramente polidos e, talvez, um tanto extravagantes nas saudações. Porém, sua atitude de negar que estava rindo, foi ainda mais errada.

Sara e Abraão, posteriormente, perceberam que os visitantes eram mais do que homens comuns. A palavra foi proferida em um tom de autoridade: Sara certamente iria dar à luz um filho! Haveria coisa alguma difícil ao Senhor? Ao tempo determinado, tornarei a ti por este tempo da vida, e Sara terá um filho (Gn 18.14).

Dois dos visitantes celestiais se retiraram, a caminho de Sodoma, a fim de realizarem sua missão ali. Porém, o Senhor permaneceu para conversar com Abraão e lhe revelar o que estava para acontecer com as cidades da planície. Ao fim daquele ano, Deus cumpriu Sua promessa, tendo Sara um filho. Abraão tinha, então, cem anos de idade, e Sara, noventa. A despeito de sua idade avançada, ela foi capaz de amamentar o bebê. No oitavo dia, em obediência à aliança, Isaque foi circuncidado.

 

A OFERTA DE ISAQUE NO MONTE MORIÁ

No capítulo 22 de Gênesis, é narrada a história do momento mais notável de Abraão. Contudo, não podemos esquecer que também foi a ocasião de maior honra para Isaque. Abraão não poderia ter desempenhado aquele supremo ato de obediência sem a total cooperação de seu filho Isaque. Pai e filho enfrentaram a maior prova de completa devoção a Deus, sendo aprovados com mérito.

Isso aconteceu, aproximadamente, 20 anos após Hagar e Ismael partirem. Isaque já era um jovem adulto, pois foi capaz de carregar um grande feixe de lenha por uma distância considerável (Gn 22.4-6). Deus dissera a Abraão que tomasse Isaque e se dirigisse a um monte, na região de Moriá, que ficava a uma distância de três dias de jornada, onde deveria oferecer seu filho como uma oferta queimada.

Essa história tem sido uma “pedra de tropeço” para os teólogos liberais. Eles alegam que Deus nunca exigiria tal sacrifício de Abraão. É também a favorita dos cépticos, que tentam provar que o Jeová do Antigo Testamento era uma divindade sedenta de sangue, cujas vindicações eram incompatíveis com um Deus de amor. Os céticos consideram que as histórias bíblicas são mitos, ou, na melhor das hipóteses, apenas alegorias, sem uma base real.

O episódio de Abraão oferecendo Isaque, portanto, requer um exame bem cuidadoso. Cremos que, com um estudo profundo, o relato, em vez de suspeito, apresenta as mais fortes provas de inspiração divina.

  1. Deus prova Abraão.

Na versão da Bíblia, em Língua Portuguesa, Almeida Revista e Corrigida, lemos em Gênesis 22.1 que Deus tentou Abraão. Essa tradução, contudo, é um pouco pobre. A palavra hebraica Nash é traduzida como tentar, mas a maioria dos estudiosos da língua hebraica concorda que a melhor tradução seria provar. O diabo tenta o homem a fim de que este faça o mal. Deus nunca tenta os homens, embora permita que se desenvolvam situações que sirvam para lhes testar o caráter. Tiago diz: Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta (Tg 1.13). Satanás tenta o homem para levá-lo a cair no pecado, com o objetivo final de fazer com que a alma deste se perca. Deus busca provar os homens, a fim de obter um povo que permaneça fiel a Ele pela eternidade.

  1. A ordem só foi dada depois que Abraão conhecia profundamente a voz de

É importante notar que Deus nunca mandou Abraão sacrificar seu filho Isaque antes que o patriarca tivesse aprendido plenamente a reconhecer Sua voz, a fim de saber, com certeza, que se tratava da voz de Deus.

Já houve ocasiões em que pessoas insanas pegaram seus filhos e mataram, como sacrifício a Deus, em uma suposta imitação à fé de Abraão. Gente que ouve espíritos sedutores corre o grande perigo de ser levada a um terrível e satânico engano.

Deus estabelece uma prova para todo profeta: observar se a profecia de fato se cumpre. Caso não passe nesse teste, então, é um falso profeta (Dt 18.22). Deus disse a Abraão que Sodoma seria destruída, e aconteceu conforme Ele dissera. O Senhor falou a Abraão que Sara teria um filho. Vinte e cinco anos depois, quando o ciclo reprodutivo de Sara já tinha cessado há um bom tempo, Deus cumpriu Sua palavra de forma miraculosa e deu-lhe Isaque.

Deus não fez esse teste com Abraão sem primeiro ter provado a ele que Sua Palavra era verdadeira. Esse ponto é importante, porque, hoje, notamos pessoas obedecendo a vozes estranhas, não pertencentes a Deus, que, no final, levam-nas ao desastre e ao naufrágio espiritual.

  1. Na verdade, Deus estava ensinando a Abraão e Isaque que sacrifícios humanos nunca seriam necessários.

Conforme veremos, longe de estar incentivando Abraão a sacrificar o próprio filho, o Senhor estava mostrando a ele, bem como a toda a humanidade, que sacrifícios humanos nunca seriam necessários e nunca foram ordenados por Deus.

Na verdade, o sacrifício humano era um terrível costume pagão, adotado no culto babilônico. Ainda hoje, em algumas regiões da África e da Índia, mães pagãs jogam os filhos para animais selvagens ou dentro de rios, em uma vã esperança de que a oferta aplaque a ira de seus deuses. Tais deuses são, na verdade, demônios (1 Co 10.20).

Podemos notar que Abraão não demonstrou receio com a ordem do Senhor. Se, atualmente, um profeta desse uma ordem semelhante, não só teríamos motivos para ficar espantados, como teríamos a certeza de que tal profeta estaria falando em nome do diabo. Todavia, nos dias de Abraão, a situação era totalmente diferente. Até onde ele sabia, Deus ocasionalmente poderia requerer um sacrifício humano. Se e quando tal sacrifício era exigido, era obrigação dos pais estarem dispostos a entregar seus filhos. O mérito de Abraão e Isaque está na disposição que demonstraram para fazer o sacrifício.

  1. Deus não mandou Abraão sacrificar

Esse é um ponto que não pode ser ignorado. Deus mandou Abraão oferecer Isaque, mas não matá-lo. Tudo o que Abraão deveria fazer era colocar Isaque sobre o altar como uma oferta a Deus. Se o Todo-Poderoso ordenaria que ele fosse adiante e matasse seu filho, era algo que não tinha sido revelado. Abraão tinha esperanças de que Deus providenciaria o sacrifício, pois disse a Isaque: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto (Gn 22.8). Note também as palavras de Abraão para os empregados que o acompanharam: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos a vós (v. 5). Eis aqui a verdadeira fé! Abraão disse aos empregados que tanto ele como Isaque voltariam!

  1. A parte de Isaque na

A ênfase sempre tem sido dada ao papel de Abraão na história; certamente, nada poderá diminuir o destaque da incrível fé desse homem. Contudo, nós, às vezes, ignoramos o fato de que Isaque deve compartilhar da mesma glória. Abraão nunca poderia cumprir seu ato de obediência se Isaque não estivesse disposto a cooperar. Imagine seu meio-irmão Ismael consentindo em entregar a própria vida, como Isaque fez!

Agora, consideremos o papel de Isaque:

Em primeiro lugar, vamos enfatizar: nem Abraão, nem Isaque reconheciam a questão moral em jogo no sacrifício humano, como nós entendemos hoje. Atualmente, tal coisa seria considerada loucura e crime hediondo. Na verdade, Deus determinou essa prova justamente com o propósito de ensinar a Abraão e a seus descendentes que o sacrifício de uma vida humana para salvar outra era desnecessário; portanto, nunca deveria ser praticado. Deus providenciou Cristo como substituto, o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Mas, naquele momento, Abraão e Isaque não tinham a menor ideia do que Deus estava ensinando.

Isaque era jovem, e a vida era doce. Deve ter sido um choque para ele perceber que tinha sido escolhido para ser o grande sacrifício. O fato de ter consentido é uma notável demonstração de confiança em Deus, à semelhança de seu pai. O caráter de Isaque contrasta com o egoísmo do seu filho Jacó, que enganou o próprio pai de forma vergonhosa.

Ressaltamos que Isaque tinha 20 anos de idade, enquanto Abraão, 120 anos. O jovem poderia facilmente resistir, não permitindo que o pai o amarrasse e o colocasse sobre a lenha. O fato de ter se submetido demonstra realmente uma incrível coragem e confiança em Deus.

  1. Deus providencia o sacrifício.

Como já observamos, após Abraão deixar os empregados para trás, Isaque colocou o feixe de lenha sobre o ombro, então a curiosidade do jovem se acendeu. Isaque percebeu que não havia cordeiro para o sacrifício. Então, falou Isaque a Abraão, seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? (Gn 22.7) Abraão deu-lhe apenas uma resposta curta, afirmando que o Senhor providenciaria para Si o cordeiro. A resposta contentou Isaque.

Sobrevém a parte mais dramática da história. Isaque ajudou a arrumar a lenha. Somente depois disso, o pai, cujo coração estava partido, revelou a Isaque o que Deus havia dito quanto a ele ser sacrificado. Certamente, seria contra todas as inclinações humanas que um jovem concordasse com tal coisa. Isaque, porém, possuidor de equidade, submeteu-se ao pai, permitindo que o amarrasse e o colocasse sobre a lenha. Dessa maneira, Isaque fez por merecer a mesma honra de Abraão, nessa grande demonstração de devoção a Deus. Tornou-se digno de ter um lugar memorável no testemunho de Deus, no episódio da sarça ardente: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó (Êx 3.6).

Como já vimos, embora Deus não tivesse nenhuma intenção de permitir que Abraão sacrificasse Isaque, a ocasião configurou-se um teste genuíno, uma vez que Abraão e Isaque não tinham conhecimento do que Deus almejava. Abraão, tendo amarrado o jovem e o colocado sobre a madeira, pegou uma faca e preparou-se para sacrificá-lo. Sem dúvida, o patriarca tinha fé de que Deus interviria de alguma maneira. Naquele momento, o fim se anunciava, e a única esperança era que Deus fizesse um milagre, ressuscitando Isaque:

Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado, sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar. E daí também, em figura, ele o recobrou.

Hebreus 11.17-19

Mas, no momento em que a faca fora levantada, ficando parada no ar por um instante, antes que o golpe irrevogável fosse desferido, o anjo do Senhor apareceu e segurou a mão de Abraão:

Mas o Anjo do Senhor lhe bradou desde os céus e disse: Abraão, Abraão! E ele disse: Eis-me aqui. Então, disse: Não estendas a tua mão sobre o moço e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus e não me negaste o teu filho, o teu único […] Então, o Anjo do Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde os céus e disse: Por mim mesmo, jurei, diz o Senhor, porquanto fizeste esta ação e não me negaste o teu filho, o teu único.

Gênesis 22.11,12,15,16

Surpreso, Abraão olhou para cima, notando um carneiro amarrado pelos chifres em um arbusto. Rapidamente, soltou Isaque, tomou o carneiro e o ofereceu como sacrifício. Assim, Deus demonstrou que o sacrifício humano não seria necessário, tendo Ele mesmo providenciado um substituto. Era isso que Deus estava ensinando a Abraão e Isaque

Como um personagem-tipo, Isaque é único. A sujeição dele, mesmo diante da morte, ilustra maravilhosamente o espírito submisso de Jesus, descrito pelo profeta Isaías: Ele foi oprimido, mas não abriu a boca; como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca (Is 53.7).

Seria interessante conhecer melhor alguns detalhes desse evento, mas sobre os quais não é dada informação alguma. Onde estaria Sara e qual foi sua atitude diante de toda a questão? Ela não é mencionada na trama. É improvável que Abraão tenha revelado a ela qualquer detalhe, como fizera com Isaque, momentos antes do holocausto. Provavelmente, deve ter dito apenas que Deus o mandara ir a certo lugar oferecer sacrifício. Isso seria mais uma coisa para atormentar a alma do grande patriarca, enquanto se preparava para obedecer a Deus. Como seria capaz de explicar aquilo para Sara?

Sara, já muito idosa, possuía apenas mais alguns anos de vida. Embora ela fosse uma esposa obediente, merecendo um lugar na galeria dos heróis da fé (Hb 11), sua capacidade de entender esse tipo de prova não se comparava à de seu marido. Provavelmente, seria demais esperar que ela passasse pelo mesmo desafio de Abraão. Contudo, Sara não é mencionada na narrativa.

Após o desfecho desse acontecimento, o enfoque bíblico muda de Abraão para Isaque. Aproximadamente 17 anos depois do evento do Monte Moriá, a mãe de Isaque faleceu. Embora ela tenha alcançado a idade avançada de 127 anos (Sara é a única mulher cuja idade é mencionada na Bíblia, por ocasião de sua morte), sua partida foi profundamente sentida pelo filho. Isaque só se casou com Rebeca três anos mais tarde, muito ressentido pela perda. A Bíblia diz que ele levou Rebeca para a tenda da mãe: Assim, Isaque foi consolado depois da morte de sua mãe (Gn 24.67).

 

O ROMANCE DE ISAQUE E REBECA

 A vida de Abraão já estava próxima de seu crepúsculo. Estava com 140 anos de idade; porém, ainda havia uma importante meta a cumprir: estar certo de que Isaque se casaria com a mulher que Deus provera para ele. Abraão tinha plena convicção de como era importante que Isaque encontrasse a esposa certa. A própria experiência com Hagar lhe ensinara essa lição.

Sem, o grande patriarca da Era Antediluviana, ainda estava vivo, e existem evidências de que ele e Abraão conheciam bem um ao outro. Sem, certamente, teria advertido Abraão sobre os perigos de uma linhagem piedosa envolver-se com uma linhagem ímpia por meio do casamento. As terríveis consequências que resultaram do casamento dos descendentes de Sete com os povos pagãos de Canaã ainda estavam bem vívidas na sua lembrança. Abraão tremia com o pensamento de que Isaque poderia casar-se com uma das filhas de Canaã, afastando-se do Deus verdadeiro.

Naquele tempo, era costume entre as tribos pastoris que os pais negociassem o casamento dos filhos. Abraão designou seu servo mais fiel, Eliézer, dando-lhe a importante responsabilidade de viajar para Padã-Arã e encontrar uma esposa para Isaque entre os seus próprios parentes. De acordo com Gênesis 22.20-23, percebemos que Abraão sabia a respeito de Rebeca, filha de Betuel. Além do mais, parece que a conversa com o seu servo envolvia uma mulher específica: Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu  juramento; somente não faças lá tornar a meu filho (Gn 24.8).

O servo encarregado dessa missão partiu de Canaã com uma caravana de dez  camelos, carregados com provisões e presentes, rumo à Mesopotâmia. Finalmente, depois de uma jornada que deve ter durado várias semanas, chegou à aldeia de Naor, ao entardecer. Na extremidade da cidade, havia um poço de água. O servo sabia que aquela era a hora em que as donzelas da cidade vinham tirar água. Ele percebeu que aquele momento era apropriado para verificar se Deus abençoara sua viagem ou não. Afastando-se um pouco do poço, fez uma pequena oração a Deus:

E disse: Ó Senhor, Deus de meu senhor Abraão, dá-me, hoje, bom encontro e faze beneficência ao meu senhor Abraão! Eis que eu estou em pé junto à fonte de água, e as filhas dos varões desta cidade saem para tirar água; seja, pois, que a donzela a quem eu disser: abaixa agora o teu cântaro para que eu beba; e ela disser: Bebe, e também darei de beber aos teus camelos, esta seja a quem designaste ao teu servo Isaque; e que eu conheça nisso que fizeste beneficência a meu senhor.

Gênesis 24.12-14

 

Mal Eliézer finalizou a oração, uma jovem muito atraente aproximou-se do poço. A Bíblia dá uma descrição bem definida de Rebeca. Ela era mui formosa à vista (Gn 24.16). Sua beleza, mesmo à distância, atraiu a atenção do servo. Enquanto a observava, recolhendo água do poço, Eliézer notou que seus gestos eram rápidos e hábeis. Os camelos não estavam muito longe do poço, mas Rebeca retirou a água com tanta agilidade, que o servo teve de correr para alcançá-la, antes que fosse embora. A moça, notando sua aproximação, parou para ver o que ele queria.

O servo se preparou para colocar seu pequeno plano em ação. Ele disse: Ora, deixa-me beber um pouco de água do teu cântaro (v. 17). A jovem donzela olhou inocentemente para ele, sem demonstrar nenhuma suspeita; atentou para os camelos e percebeu se tratar de um estrangeiro, que percorrera longa distância. Rebeca – este era seu nome – poderia ter respondido que estava com pressa e que não podia se atrasar, e a história do mundo seria drasticamente mudada; mas não foi assim. Rapidamente, desceu o cântaro do ombro e, com muita gentileza, convidou-o a beber. Enquanto Eliézer bebia água fresca, os olhos dela percorriam toda a cena. Diante de Rebeca, havia dez camelos sedentos, cuja capacidade para armazenar enorme quantidade de água valeu-lhes o apelido de “navios do deserto”. Rebeca, contudo, não hesitou, oferecendo-se para dessedentar todos os camelos: E, acabando ela de lhe dar de beber, disse: Tirarei também água para os teus camelos, até que acabem de beber. E apressou-se, e vazou o seu cântaro na pia, e correu outra vez ao poço para tirar água, e tirou para todos os seus camelos. (Gn 24.19,20).

Transformando as palavras em ação, a jovem começou a trabalhar com tal entusiasmo, como se tivesse medo de perder a oportunidade de realizar a árdua tarefa. Na verdade, cada passo e movimento dela, como se diz, estavam “tecendo as irrevogáveis tranças do destino”.

Finalmente, já nas sombras da noite, ela terminou a tarefa. O servo, recuperando-se da surpresa causada pela rapidez com que seu sinal tinha se cumprido, alcançou uma de suas malas, abrindo-a. Naquele momento, foi Rebeca quem ficou surpresa. Eliézer tirou algumas joias, as quais deu à jovem. Dois braceletes de ouro foram colocados em seus pulsos. Então, ele lhe fez algumas perguntas. De quem és filha? Faze-me saber, peço-te; há também em casa de teu pai lugar para nós pousarmos? (v. 23).

Rebeca respondeu com firmeza. Ela era a neta de Naor, irmão de Abraão. Além disso, ela informou ao servo que em sua casa havia lugar para hospedá-lo, bem como acomodações para os camelos.

Enquanto o servo inclinava sua cabeça e adorava o Senhor, Rebeca correu rapidamente na penumbra até a casa onde havia uma luz. Ela não demorou muito para contar toda a história e para mostrar os braceletes de ouro. O brilho do ouro atraiu os olhos de seu irmão Labão, que possuía algumas das qualidades da irmã, mas não tinha o mesmo caráter. Sem dúvida, Labão julgou que um homem carregando tantas joias preciosas seria digno de atenção. Correu ao poço e encontrou o homem ainda lá. E disse: Entra, bendito do Senhor, por que estarás fora? Pois eu já preparei a casa e o lugar para os camelos (Gn 24.31).

Labão era muito veemente na expressão da sua hospitalidade. Ele não teve tempo para fazer os preparativos que anunciara, mas a recepção foi aceitável. Em alguns minutos, os camelos e os homens da caravana estavam todos acomodados na casa. Nessa ocasião, a excitação havia crescido na casa de Betuel. Será que a família já pressentira que algo estava acontecendo e que afetaria profundamente o futuro de todos eles?

Se Rebeca era direta e franca em suas maneiras e no modo de falar, o servo, igualmente. Não foi sem razão que Abraão colocara tudo quanto possuía nas mãos de Eliézer, de Damasco. O homem não só compartilhava totalmente da fé de Abraão, como também era um administrador muito competente, que provavelmente muito contribuiu para o enriquecimento de Abraão. Ele reconhecia um bom negócio ao avistá-lo e, nesse caso, não perdeu tempo, indo direto ao assunto e fechando o acordo.

A cena movia-se rapidamente. Embora a família de Betuel convidasse Eliézer para o jantar, o servo não tocou na comida enquanto não explicou sua presença. Que discurso excelente ele fez! Apresentou seu patrão; as riquezas; o filho de Abraão, Isaque, de forma muito calorosa: O Senhor abençoou muito o meu senhor, de maneira que foi engrandecido; e deu-lhe ovelhas e vacas, e prata e ouro, e servos e servas, e camelos e jumentos. E Sara, a mulher do meu senhor, gerou um filho a meu senhor depois da sua velhice; e ele deu-lhe tudo quanto tem (Gn 24.35,36).

Eliézer narrou os fatos que culminaram com sua viagem a Padã-Arã. Ao final de tudo, revelou sobre sua oração no poço e sobre a maneira incrível como foi respondida. Quem poderia ter representado melhor o caso de Abraão do que aquele servo fiel?

Eliézer percebeu que seus ouvintes estavam impressionados; notando essa vantagem, pressionou-os a fim de que tomassem uma decisão. Agora, pois, se vós haveis de mostrar beneficência e verdade a meu senhor, fazei-mo saber; e, se não, também mo fazei saber, para que eu olhe à mão direita ou à esquerda (Gn 24.49). A família de Betuel deveria estar atônita pelos acontecimentos que tomaram lugar em sua pacata vila naquelas últimas horas. Provavelmente, ficaram surpresos ao se verem dando permissão: Então, responderam Labão e Betuel e disseram: Do Senhor procedeu este negócio; não podemos falar-te mal ou bem. Eis que Rebeca está diante da tua face; toma-a e vai-te; seja a mulher do filho de teu senhor, como tem dito o Senhor (Gn 24.50,51).

Então, Eliézer fechou o acordo, tirando vasos de prata, e vasos de ouro, e vestes e deu-os a Rebeca; também deu coisas preciosas a seu irmão e a sua mãe (Gn 24.53). Somente quando tudo isso estava bem resolvido, Eliézer consentiu em sentar-se e comer.

Na manhã seguinte, Labão e a mãe de Rebeca (Betuel parece pouco participar, talvez devido à idade muito avançada) fizeram um pedido razoável: que Rebeca pudesse permanecer algum tempo com eles, talvez uns dez dias; depois, então, partiria (v. 55). Eliézer, contudo, alegou que preferia partir imediatamente. Ele era um homem direto. Queria completar sua missão sem demora. Quem poderia garantir que, depois de dez dias, a jovem não mudaria de ideia? O senso de urgência de Eliézer parecia arrastar tudo diante dele.

Pressionados por essa decisão, eles chamaram Rebeca e lhe disseram: Irás tu com este varão? Ela respondeu sem hesitação: Irei (v. 58). E, assim, a grande decisão foi tomada.  A jovem, que, ontem, fazia parte da pequena aldeia de Naor, decidida como era, reconheceu a oportunidade quando esta apareceu, aceitou a proposta e tornou-se uma figura importante no destino da humanidade.

A família, por sua vez, sentiu bastante o fato de Rebeca, que por tantos anos fizera parte do seu convívio, dentro de alguns momentos, ser separada. Um espírito profético veio sobre eles e, olhando séculos à frente, viram Rebeca como a mãe de bilhões de pessoas! E abençoaram Rebeca e disseram-lhe: Ó nossa irmã, sejas tu em milhares de milhares, e que a tua semente possua a porta de seus aborrecedores! (Gn 24.60).

Houve rápidas despedidas, algumas lágrimas derramadas e os últimos abraços. Então, Rebeca, acompanhada de sua ama Débora e de algumas outras donzelas, montou em um dos camelos; assim, a caravana partiu. Olhos úmidos ficaram observando, enquanto o grupo tornava-se cada vez menor no horizonte. Finalmente, ultrapassaram uma duna, e Rebeca não foi mais vista. Ela não pertencia mais à vida deles, no que dizia respeito ao seu cotidiano.

A caravana seguiu através da Mesopotâmia, às margens do rio Eufrates, atravessando desertos. Finalmente, após muitos dias de viagem, o brilho de Damasco, a cidade mais famosa nessa época, surgiu à vista. Então, rumaram para o sul e seguiram mais alguns quilômetros, chegando perto de Berseba.

Anoitecia quando chegaram ao destino. Na quietude do crepúsculo, Isaque saiu para orar nos campos. Três anos se passaram desde que sua mãe morrera. O espírito sensível de Isaque nunca se recuperou totalmente dessa perda. Ele deve ter pensado a respeito do servo que viajara para lhe assegurar uma esposa. Que tipo de mulher seria? Uma companheira fiel? Ele poderia ser um bom marido para ela?

Essa reflexão foi subitamente interrompida. Isaque avistou camelos chegando pela estrada que levava ao norte. Ele se dirigiu à caravana. Rebeca, de cima de seu camelo, notou Isaque se aproximando. Fitou o servo, perguntando: Quem é aquele varão que vem pelo campo ao nosso encontro? (Gn 24.65) Talvez, ela já imaginasse quem ele seria. O servo respondeu: Este é meu senhor. Que emoções teriam tirado o fôlego de Rebeca, ao imaginar que em breve estaria contemplando a face do companheiro de toda sua vida! Ela desceu do camelo, tendo o rosto coberto com o véu, como era o costume das mulheres orientais.

Isaque também devia estar cheio de indagações. Mas, ao ver a linda Rebeca, deve ter percebido o jeito decidido e a graça de sua noiva, acreditando que os sonhos dele seriam realizados. Diferentemente dos outros patriarcas, Isaque teve apenas uma esposa. Ele foi fiel a Rebeca durante toda sua vida: E Isaque trouxe-a para a tenda de sua mãe, Sara, e tomou a Rebeca, e foi-lhe por mulher, e amou-a. Assim, Isaque foi consolado depois da morte de sua mãe (Gn 24.67).

 

A União de Isaque e Rebeca tipifica o modelo de casamento

Em outro livro, analisamos este mesmo assunto e mostramos as diversas razões que nos levam a considerar a união de Isaque e Rebeca um modelo de casamento.

  1. Os dois membros da união devem compartilhar a mesma fé

Muitas lições podem ser aprendidas pela história da viagem do servo de Abraão, indo a um país distante para escolher uma esposa para o filho do seu senhor. Essa longa viagem, ao lugar onde viviam os parentes de Abraão, adoradores do mesmo Deus verdadeiro, indica a importância de se escolher um cônjuge entre pessoas que compartilham a mesma fé. Tanto Abraão como Isaque foram zelosos, fazendo o possível para que seus filhos não se casassem com mulheres cananitas. Quando Esaú decidiu se casar com duas mulheres pagãs, isto foi para Isaque e Rebeca uma amargura de espírito (Gn 26.35).

  1. A escolha só deve ser feita depois de oração intensa e específica.

Ao chegar à Mesopotâmia, o servo de Abraão se dedicou à oração, antes de buscar a esposa apropriada para Isaque. Ele orou: Ó Senhor, Deus de meu senhor Abraão, dá-me, hoje, bom encontro e faze beneficência ao meu senhor Abraão! (Gn 24.12). Pediu direção divina, a fim de que o Senhor o guiasse na decisão a ser tomada em breve. Então, tudo sucedeu de acordo com sua oração: Rebeca foi até ele e preencheu, sobremaneira, os requisitos da oração de Eliézer. Cortesia e disposição para o trabalho são qualificações importantes em um parceiro para a vida.

Um dos requisitos naquela que seria a esposa de Isaque deveria ser educação e disposição para servir. Como teste de suas qualificações, não se estipulou apenas que ela servisse água a um estranho, mas também que se propusesse a saciar a sede de todos os camelos. Que tarefa! Se um camelo sedento pode consumir uma quantidade incrível de água – imagine dez camelos! Evidentemente, Rebeca estava acostumada a trabalhar. Era um bom sinal. Certamente, um casamento não será satisfatório se um dos parceiros (ou ambos) for preguiçoso ou apático.

  1. Deve haver total liberdade de

Rebeca cumpriu as condições que o servo estabelecera em sua oração. A questão seguinte era se ela aceitaria ou não a proposta de se casar com Isaque. Irás tu com este varão? (Gn 24.58). Nessa pergunta, percebemos a intenção de Deus de que ambos os parceiros tivessem total liberdade de escolha. Casamento algum pode ter esperança de sucesso caso um dos parceiros seja obrigado a contrair núpcias. Rebeca teve liberdade para escolher e respondeu: Eu irei.

  1. Castidade pré-conjugal: um quesito para um casamento

Outro aspecto deve ser destacado: a Bíblia menciona, especificamente, que Rebeca era virgem (Gn 24.16). As experiências sexuais pré-conjugais, que se explicam pelo atual enfraquecimento dos padrões morais, consistem em não apenas uma violação de uma lei de Deus, mas também em uma brecha para posteriores suspeitas e insegurança. Diz-se que uma, em cada 20 pessoas, tem algum tipo de doença venérea.

A partir do momento em que pessoas infectadas se casam, um cônjuge inocente poderá ser contaminado pela moléstia. Que triste maneira de começar um casamento! Não existem previsões para a colheita perniciosa que se segue ao plantio de sementes durante anos de vida pecaminosa. Porém, Rebeca era virgem. Um verdadeiro casamento deve ser construído sobre o amor.

A história da escolha conjugal termina quando Isaque toma Rebeca como sua esposa. E tomou a Rebeca, e foi-lhe por mulher, e amou-a (Gn 24.67). Assim, todos os casamentos verdadeiros devem ser construídos sobre o amor mútuo.

  1. Isaque e Rebeca permaneceram no

Isaque nunca teve relações com outra mulher nem arranjou uma segunda esposa, como era o costume geral na região, naquela época. Permaneceu fiel a Rebeca durante toda a vida, da mesma maneira que ela agiu em relação a ele. Observe que a Bíblia menciona Isaque, mesmo depois de casado, dispondo de tempo para cortejar a esposa (Gn 26.8).

Por todos esses aspectos, a história da união de Isaque e Rebeca, progenitores de milhares de milhares de pessoas, deveria ser um modelo para todos os casamentos que viriam.

 

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