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Rute, a respigadeira, e o menino Samuel

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018 | 318 acessos | Deixe seu comentário!

Rute é uma das personagens mais queridas da Bíblia. Podemos ver em sua vida a maravilhosa operação da providência do Senhor Deus. Em meio a uma série de fatalidades que se abateram sobre a família de Elimeleque, Rute foi levada a conhecer o Deus de Israel e tornou-se uma das mais relevantes e nobres personalidades do Antigo Testamento.

Acreditamos que ela era uma mulher atraente. Entretanto, a beleza física era ofuscada pela beleza do seu caráter. Irving Fineman a descreve como uma mulher “cuja beleza radiante da face e das formas não podia ser obscurecida nem mesmo pelas sombras ou pelo estado lastimável de suas roupas”.

Embora Rute fosse extremamente meiga, ela agia sempre com firmeza em todas as situações, o que pode ser observado na memorável declaração que fez à sogra, dizendo: Não me instes para que te deixe e me afaste de ti; porque, aonde quer que tu fores, irei eu e, onde quer que pousares à noite, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e ali serei sepultada (Rt 1.16,17a).

Rute não fingia ser uma mulher de brio. Ela partiu para Belém não só preparada para compartilhar da pobreza e das agruras da sogra, mas também disposta a trabalhar a fim de melhorar a própria condição e a de Noemi. Não teve vergonha de aceitar a condição de quase indigente e sair aos campos para respigar, primeiro pedindo permissão para fazer isso. Sua história, então, torna-se uma história de amor. Seu empenho atraiu a atenção do supervisor, o qual relatou a Boaz que ela trabalhara sem descanso, no campo, durante todo o dia. Por meio de sua perseverança e fidelidade, tirou a si mesma e a sogra da obscuridade e da pobreza para uma posição de influência e abundância. Seu nome ocupa uma posição de honra que o tempo jamais diminuirá ou tirará o brilho.

A história de Rute e Noemi é uma das mais comoventes do Livro Sagrado. É um relato incomum. No entanto, o aspecto mais notável é que a heroína era uma moabita, ou seja, fazia parte de um povo que estava sob maldição na época!

Os moabitas eram considerados inimigos jurados dos filhos de Israel. O fundador de Moabe era filho de Ló com uma de suas filhas – resultado de uma relação incestuosa. De acordo com a Lei de Moisés, nenhum amonita ou moabita entrará na congregação do SENHOR; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do SENHOR, eternamente (Dt 23.3).

O relato da relação de Israel com Moabe, durante o tempo da peregrinação no deserto, forma uma página tenebrosa. Balaque, o rei de Moabe, tentou contratar Balaão para colocar uma maldição sobre os israelitas. Não obtendo êxito nisso, o ganancioso profeta ensinou Balaque a colocar uma pedra de tropeço diante do povo de Israel para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se prostituíssem (Ap 2.14b). Balaão teve sucesso nessa obra perversa e, como resultado, houve juízo sobre Israel, Moabe e, devemos acrescentar, também sobre Balaão.

Poucos anos depois de os israelitas terem entrado em Canaã, Eglon, rei de Moabe, invadiu o território de Israel. Ele oprimiu o povo por mais de 18 anos, exigindo o pagamento de altas taxas como tributo (Jz 3.12-30). Somente na ocasião em que Deus levantou um libertador, chamado Eúde, os filhos de Israel foram libertados daquela triste situação.

Apesar de Rute ser moabita, ela possuía excelentes qualidades. Era uma mulher modesta, cortês, leal, responsável e gentil, e o mais estranho: ela se tornaria ancestral não somente do rei Davi, mas também do próprio Cristo! Rute representa um belo tipo dos gentios que entrariam e compartilhariam, com Israel, as bênçãos da redenção. Como esposa de Boaz (ele próprio representando um tipo de Cristo em sua responsabilidade como remidor – Rt 3.9), Rute tipificava a noiva gentia do Senhor.

A Bíblia afirma que Rute viveu na época dos juízes; entretanto, sob o governo de qual juiz? Uma genealogia é apresentada no quarto capítulo, mas parece evidente que alguns elos foram desprezados. Se, porém, Boaz realmente foi avô de Jessé e bisavô de Davi, poderíamos supor que os eventos registrados no livro de Rute ocorreram menos de cem anos antes dos dias de Davi. Isso situaria a história no período do governo dos juízes menores ou no início do governo de Sansão.

O cenário da história é Belém de Judá. Para nós, o nome da cidade de Belém faz lembrar a cidade natal do Salvador Jesus Cristo. Na época dos juízes, tratava-se de uma cidade pequena, não tendo algo que a distinguisse de um grande número de outras vilas de Israel, exceto o fato de que ficava próxima ao túmulo de Raquel, esposa de Jacó.

Foi em Belém que um levita tomou uma esposa, a qual logo depois o abandonou para trabalhar como prostituta. O levita, um sumo sacerdote nomeado que ministrava em um altar de idolatrias, retornou a Belém atrás da mulher que o havia abandonado e a levou consigo. No caminho de volta, pararam em uma cidade da tribo de Benjamim para passarem a noite. A mulher sofreu indignidades tão atrozes e violentas nas mãos dos homens da cidade, que morreu. Esse incidente deflagrou uma terrível guerra civil em Israel. O que foi dito com relação à Nazaré: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (Jo 1.46) poderia ter sido dito também sobre Belém naquela época.

 

Elimeleque migra para Moabe com sua família

Por alguma razão, provavelmente uma seca, uma severa fome assolava Israel. Certo homem, chamado Elimeleque, tomou sua esposa Noemi e seus dois filhos, Malom e Quiliom, e partiu para a terra de Moabe a fim de escapar da fome. Moabe ficava a leste do mar Morto e era uma região famosa pela fertilidade, mas era também uma terra voltada para a idolatria. A pergunta que se discute calorosamente é se Elimeleque cometeu um pecado ao abandonar a terra da Aliança para entrar naquele país. Parece uma coisa perigosa que pais tementes a Deus levem os filhos para viverem entre um povo pagão. Além disso, não fazia muito tempo que Israel tinha recebido uma terrível punição de Deus porque os homens haviam se casado com mulheres moabitas (Nm 25.1-9; 1 Co 10.8).

O nome de Elimeleque significa Deus é Rei. Ainda assim, ele deixou um país onde Deus era o Rei e migrou para uma terra onde imperava a idolatria. A intenção aqui não é julgar Elimeleque. Até mesmo Davi, certa ocasião, colocou seus parentes sob o cuidado do rei de Moabe (1 Sm 22.3,4). Mesmo assim, é preciso destacar que Elimeleque não prosperou naquela terra. Pelo contrário, ele e sua família foram atingidos por uma série de infortúnios. Não muito tempo depois de chegarem àquele país, Elimeleque morreu, deixando viúva sua esposa Noemi.

Depois da morte do marido, Noemi deve ter sentido profundamente a falta dos amigos deixados em Belém e desejou retornar. Seus dois filhos, entretanto, casaram-se com moças moabitas, e isso fez com que permanecessem em Moabe. As pessoas devem lembrar que, quando se mudam para uma região onde há ausência de condições espirituais, os filhos estarão ligados às pessoas daquela comunidade. No tempo determinado, irão se casar e estarão cada vez mais envolvidos com os habitantes do lugar. Assim, a família descobre, um dia, que a decisão é irreversível. Este foi o caso do infeliz Ló, sobrinho de Abraão, que foi morar na perversa cidade de Sodoma, bem como o caso de Noemi.

Conforme dissemos, na ocasião da morte de Elimeleque, os dois filhos do casal haviam se casado com mulheres moabitas. Provavelmente, Noemi, sendo uma mulher devota a Deus, não estava satisfeita com essa decisão dos filhos. Seu nome, Noemi, significa agradável, e ela agiu de acordo. Em vez de ter uma atitude hostil para com as duas noras, demonstrou um espírito amoroso. Quando surgiam as oportunidades, ensinava sobre o Deus de Israel. Com o tempo, conquistou o amor e a confiança das noras.

Finalmente, aconteceu a tragédia final na vida de Noemi. Seus dois filhos, que nunca foram muito fortes (Malom significa doente e Quiliom significa aniquilado), ficaram doentes e morreram ainda na flor da juventude. Assim, a tragédia deixou três viúvas desamparadas e, aparentemente, sem qualquer recurso. As posses de Noemi realmente haviam se esgotado, e o incidente certamente ilustra que, quando os filhos de Israel deixavam sua terra nativa para escapar de problemas, sofriam calamidades muito maiores do que se tivessem permanecido na terra natal (Rt 1.3-5).

Qual seria o significado de todo o infortúnio que assolava aquela família? Certamente, não é da vontade de Deus que a doença e a morte tomem a vida dos Seus filhos antes do tempo. A promessa de Deus para Seu povo é: E servireis ao SENHOR, vosso Deus, e ele abençoará o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de ti as enfermidades (Êx 23.25). Para que o significado ficasse bem claro, o Senhor repetiu a promessa em Deuteronômio 7.15: E o SENHOR de ti desviará toda enfermidade; sobre ti não porá nenhuma das más doenças dos egípcios, que bem sabes; antes, as porá sobre todos os que te aborrecem. Por algum tempo, os filhos de Israel experimentaram boa saúde, e a Bíblia afirma: Mas, a eles, os fez sair com prata e ouro, e entre as suas tribos não houve um só enfermo (Sl 105.37).

A explicação para toda a situação da família de Noemi é bem simples: Elimeleque representava os israelitas. Como fica bem claro no livro de Juízes, o povo de Israel, naqueles dias, depois de experimentar as bênçãos do Senhor, muitas vezes, ficava preocupado com a prosperidade material e esquecia-se de Deus. Israel, entretanto, sendo uma teocracia, recebia severo juízo do Senhor cada vez que se afastava dEle. A desobediência, geralmente, trazia um período de castigo sobre a nação. O juízo era suspenso somente quando Israel se arrependia.

Elimeleque deveria ter buscado no Senhor o alívio para as tribulações pelas quais a nação passava. Em vez disso, tentou escapar da tribulação, mudando-se para outro país. Elimeleque permaneceu em Moabe, mas só encontrou um túmulo para si, ao lado do qual, poucos anos mais tarde, seriam sepultados também seus dois filhos.

Não sabemos qual foi a responsabilidade de Noemi na decisão da família de mudar-se para Moabe. Em geral, as mulheres eram obrigadas a seguir a determinação do marido. De qualquer maneira, dos quatro, apenas ela sobreviveu; porém, logo depois da morte do marido e dos dois filhos, Noemi decidiu voltar para o território de Israel.

 

Noemi decide voltar para Belém

Estando livre para tomar suas próprias decisões, Noemi estava ansiosa por saber como estava a situação em sua terra. De alguma forma, ela recebeu a notícia de que o SENHOR tinha visitado o seu povo, dando-lhe pão (Rt 1.6b). Depois de receber a informação, resolveu não demorar mais e voltou definitivamente para a terra natal, embora no momento não pudesse visualizar um futuro para si. Logo, porém, seria provado a ela que as horas mais escuras são as que antecedem o amanhecer.

Alguém já disse: “A fome nos campos de Belém levou Noemi para Moabe; porém, agora, uma fome em seu coração a deixou ansiosa para voltar a Belém”. Aparentemente, não pediu às noras, Orfa e Rute, que voltassem com ela. Espontaneamente, as duas iniciaram a jornada de volta junto à sogra! Como, porém, era pequena a fé de Noemi naquele momento! Em vez de encorajar as noras, aconselhou-as a retornarem ao próprio povo. Noemi, entretanto, tinha sido benigna para com elas e conquistara a afeição das duas moças. Chorando com ela, ambas disseram: Certamente voltaremos contigo ao teu povo (Rt 1.10).

Neste ponto, ao que parece, Noemi cometeu um erro. Não tendo fé para si mesma, não viu perspectivas para os outros e até mesmo desencorajou aqueles que têm buscado a Deus. Naquele momento tenebroso de sua vida, Noemi representa os cristãos que estão em um estado de frieza espiritual e que, ao invés de atrair, repelem as pessoas que buscam a Deus. Em vez de encorajar as duas noras, Noemi começou a argumentar contra a ida delas a Israel. Porém Noemi disse: Tornai, minhas filhas, por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no meu ventre mais filhos, para que vos fossem por maridos? (Rt 1.11).

As noras de Noemi sabiam pouco sobre os costumes de Israel, e a sogra previu que ficariam desapontadas quando descobrissem que lá as coisas eram diferentes de Moabe. Embora as amasse como suas próprias filhas, sentia que tinha de ser honesta com elas. Também sabia que, em Israel, havia uma tradicional antipatia para com as mulheres moabitas. As chances de conseguirem encontrar um marido israelita eram extremamente remotas. Além disso, havia pouquíssimas oportunidades para uma mulher sozinha conseguir o próprio sustento. Noemi destacou que, embora em outros tempos, sua família tivesse uma vida relativamente confortável, naquele momento, seus recursos estavam exauridos e, portanto, não teria condições de sustentar as duas moças.

Ao considerar esses elementos, seu conselho poderia até ser razoável. Jesus disse àqueles que queriam segui-Lo que, primeiro, calculassem o custo antes de darem o primeiro passo. Seria melhor que as noras soubessem de toda a verdade do que alimentar esperanças que não poderiam ser realizadas. Noemi não queria que as moças dessem um passo, movidas pela empolgação do momento, e depois se arrependessem. Em certo sentido, Noemi fez bem em advertir as noras; entretanto, deveria apresentar o caso do ponto de vista do que a fé em Deus poderia fazer, em vez de sugerir que permanecessem em Moabe, onde teriam mais chance de arranjar um marido pagão. O melhor que pôde dizer foi: Porquanto a mão do SENHOR se descarregou contra mim (Rt 1.13b).

Havia, porém, um elemento de altruísmo na atitude de Noemi. A separação seria pior para ela própria do que para as noras. Teria de fazer a viagem de volta sozinha. Elas ainda poderiam encontrar acolhida sob a proteção de um segundo marido; Noemi, porém, não sabia onde encontraria abrigo e proteção. Jamais alguém a chamaria de mãe novamente. Não havia o que olhar adiante de si, a não ser privação e pobreza. Além disso, ela não queria que as noras compartilhassem daquela situação.

O resultado da sua argumentação foi que Orfa, embora relutante, decidiu voltar para sua cidade em Moabe. Chorou, beijou a sogra e, então, esperou a decisão de Rute. Esta, porém, disse que não estava pronta para voltar, mas gostaria de discutir mais um pouco a questão com Noemi. Assim, Orfa despediu-se e iniciou sua viagem de volta; a Bíblia não a menciona mais. Quietas, as duas mulheres ficaram olhando até que a figura de Orfa desapareceu na distância. Noemi, então, disse: Eis que voltou tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses; volta tu também após a tua cunhada (Rt 1.15).

Aqui surge uma outra consideração. Se Rute abandonasse Moabe, teria de abandonar também os seus deuses. Adorar Camos em Israel seria um crime cuja punição era a morte.

 

Rute decide ir com Noemi

Rute tomou sua decisão. Já tinha calculado os custos. Durante os anos felizes que passaram juntas, tinha ouvido Noemi contar sobre o Deus de Israel, Aquele que havia livrado Seu povo da escravidão do Egito; dera aos israelitas as Leis; o Deus que realizara façanhas maravilhosas em favor deles e dera-lhes a terra de Canaã. Rute, em sua mente, fazia uma comparação entre a Lei santa do Senhor e as imoralidades da religião moabita. O seu coração honesto percebeu que havia uma grande diferença entre as duas e, por isso, decidiu que queria ter uma parte naquela herança de fé dos israelitas. Ela voltou-se para Noemi e proferiu aquelas palavras que têm sido repetidas, ao longo dos séculos, onde quer que a Bíblia seja lida. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me afaste de ti; porque, aonde quer que tu fores, irei eu e, onde quer que pousares à noite, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e ali serei sepultada; me faça assim o SENHOR e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti (Rt 1.16,17).

Rute tinha poucas oportunidades, comparando-se com as pessoas que vivem em nossos dias. Não possuía bens materiais, mas a única coisa que tinha era uma linda fé, como a de uma criança. Nas palavras mencionadas acima, ela fez a mais maravilhosa profissão de fé já feita por uma nora. Por Noemi e pelo seu Deus, Rute voltou as costas para seu lar, seu país e seus amigos. Que maravilhosa declaração de fé!

Rute compartilharia da jornada de Noemi, seus poucos bens, sua fé em Deus e o seu túmulo, depois da morte. Quanto a Camos, não seria mais seu deus. Rute escolheu o Deus de Israel. Certamente, fez uma boa escolha, pois a fé que nasceu em sua alma brilharia por meio de todas as adversidades que enfrentaria e, na verdade, tornar-se-ia um exemplo brilhante para todas as gerações vindouras.

Não podemos deixar de fazer uma comparação entre Rute e Orfa, a qual também tinha ótimas qualidades, e também tinha sido uma boa nora (Rt 1.8). Orfa também decidiu ir a Belém e havia-se unido a Rute na declaração: Certamente voltaremos contigo ao teu povo (v. 10). Quando, porém, todos os custos foram calculados, decidiu voltar a sua terra natal.

Embora as circunstâncias fossem um pouco diferentes, Orfa, de certa maneira, faz-nos lembrar do jovem rico que disse a Jesus: Bom Mestre, que bem farei, para conseguir a vida eterna? (Mt 19.16b). Ele também teve uma visão que, por um momento, iluminou seu coração. Quando, porém, avaliou os custos, virou-se tristemente e voltou-se para suas possessões.

Não havia como resistir ao apelo de Rute. Dessa forma, as duas mulheres levantaram-se e, resolutamente, voltaram as faces na direção de Belém. Orfa, que ficaria esperando ouvir os passos da cunhada atrás de si, nunca os ouviria, pois Rute fizera outra escolha. A distância até Belém era de pouco mais de cem quilômetros, mas era uma jornada difícil e perigosa. As duas tinham pouquíssima bagagem, apenas o que carregavam nas mãos e nas costas. A jornada era sobre um terreno inóspito; a profunda depressão de terreno onde ficava o rio Jordão, por onde teriam de passar, estava a mais de mil metros abaixo da elevação onde Belém estava situada.

Enquanto viajavam, o estado de depressão de Noemi aumentava. A jornada enfraquecia rapidamente suas forças. Apesar disso, havia uma luz de esperança nos olhos de Rute, quando finalmente subiram o Vale do Pastor e puderam ver a cidade de Belém, repousando sobre uma colina à distância. Nem mesmo Rute, com toda sua fé, poderia sonhar que, um dia, o próprio Filho de Deus nasceria naquela cidadezinha, ou que ela própria se tornaria ancestral do Cristo prometido!

Quando se aproximaram da cidade, havia assuntos urgentes que precisavam ser considerados. Onde se hospedariam para passar pelo menos aquela noite? Onde encontrariam alimentos? Para dizer a verdade, aquelas duas mulheres, cansadas da viagem, devem ter apresentado uma cena digna de pena, quando entraram, lentamente, na cidade de Belém. Assim, pois, foram-se ambas, até que chegaram a Belém; e sucedeu que, entrando elas em Belém, toda a cidade se comoveu por causa delas, e diziam: Não é esta Noemi? (Rt 1.19).

A chegada delas causou grande rebuliço. Elimeleque fora um cidadão proeminente de Belém, e as palavras de Noemi, dizendo: Cheia parti (v. 21), indicam que tinham sido relativamente ricos quando saíram para Moabe. O povo imediatamente reconheceu a antiga vizinha que estivera fora por tantos anos. Como estava mudada! Sem dúvida, a jornada tinha estragado as roupas de Noemi, e os sinais da tristeza e das tribulações haviam marcado profundamente seu rosto. Noemi também não tentou esconder coisa alguma das pessoas. A mudança da família para Moabe não trouxe proveito algum, apenas tristezas. Tinha perdido seu marido e os dois filhos. Todos os bens foram exauridos. Naquele momento, não possuía coisa alguma.

Para aumentar ainda mais sua tristeza, era evidente que aqueles que permaneceram em Belém e enfrentaram a fome haviam prosperado – uma prova do que teria acontecido com ela, se tivesse ficado. As colheitas estavam sendo especialmente boas. Algumas famílias ficaram ricas. Noemi pareceu reconhecer que o infortúnio deles tinha sido ocasionado por terem se afastado da vontade de Deus. Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Cheia parti, porém vazia o SENHOR me fez tornar; por que, pois, me chamareis Noemi? Pois o SENHOR testifica contra mim, e o Todo-Poderoso me tem afligido tanto (Rt 1.20,21).

Até onde sabemos, não houve quem convidasse as viajantes fatigadas para sua casa. Noemi, porém, havia antecipado uma recepção precária, razão pela qual tentou desencorajar as noras a voltarem com ela. Alguns que a viram podem até mesmo ter dito: “Se Noemi tivesse ficado em casa, talvez nada disso tivesse acontecido. Ela plantou, agora terá de colher. E quanto a esta mulher moabita que trouxe junto? Será que não vai ser um peso ainda maior para ela?”.

Pode ser que a primeira noite em Belém não tenha sido muito feliz para Noemi. Talvez, Rute não tenha feito qualquer reclamação, aceitava as circunstâncias conforme se apresentavam.

Podemos dizer, com convicção, que Noemi e Rute nem imaginavam que outra mulher, chamada Maria, a mãe do Senhor, descendente delas, um dia, também entraria em Belém e não encontraria um local para passar a noite, embora naquela noite fosse dar à luz o Cristo, o Deus encarnado! Somente os animais estariam dispostos a compartilhar o espaço deles com Maria, providenciando a manjedoura na qual Ele pudesse descansar a cabeça.

Para saber mais sobre esta maravilhosa história, leia o livro Rute, a respigadeira, e o menino SamuelSérie heróis do Antigo Testamento Retratos dos personagens notáveis Volume 16

 

 

 

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